terça-feira, 16 de março de 2010

Escola Livre de Mortágua














Transcrevemos a informação  sobre a escola Livre de Mortágua, contida no livro Contributos para a Monografia do Concelho de Mortágua:

"A Escola Livre de Mortágua foi fundada no dia 9 de Abril de 1919. Segundo uma carta de Albano Morais Lobo (filho) dirigida ao diretor do jornal "Sul da Beira", a Escola Livre não tinha objecivos políticos, mas tão-só, com a sua biblioteca, actividades desportivas, etc, libertar a população da perdição da taberna, "pelo desejo de ilumina-la daquela luz divina que nos vem da arte e das ânsias do saber".
Cinco meses após a sua inauguração, proferiu na sua sede, uma conferência sobre História de Portugal, o Dr. Lopes de Oliveira. Nela começou por abordar o aparecimento do primeiro homem sobre a Terra, a deslocação dos Povos, a fundação do Condado Portucalense e o reinado de D. Afonso Henriques. Concluiu com a afirmação de que Napoleão Bonaparte decretara em França o Estudo da história do seu país e de Portugal.

Obras de José Lopes de Oliveira: "...E Mesmo Contra a Maré"


Excerto da obra de José Lopes de Oliveira "...E MESMO CONTRA A MARÉ"
Em vez de prefácio - A Paisagem e o Demónio
Quando nesse dia me embarcaram no Niassa, só uma certeza levava: que, se naufragássemos, ia, enfim, ver África…
Eu conhecia a África – dos livros. E, pelos livros, mais de vinte anos a ensinara – tão variada geologicamente, tão diversa em flora e fauna, de tão estranhas raças, de tão singulares civilizações: continente e ilhas, desertos, oásis, selvas, planícies, cordilheiras, vulcões, rios poderosos, imensos lagos, e vastas cidades rumorosas, avizinhadas de gentílicos povoados…
Mas, há muitos mais anos, eu conhecera outra África, que tinha só aspecto - de solidão, de uniformidade telúrica, de monotonia vegetal! Conhecia-a dos sonhos; desde menino, nunca dormi sem sonhar: os sombrios pesadelos encheram as noites da minha infância.
A costa, bravia e nua, sobe a pique. Do mar tenebroso, onde navego, só distingo, além das falésias, pardos areais com anaínhos arbustos, de longos ramos ligeiros, que o vento impetuoso arrasta. De quando em quando a calma imobiliza-os; mas como numa tortura interrompida, por que se adivinha que não cessou de todo o seu martírio: as suas pequeninas folhas estão todas trementes!
E esta paisagem volteava e corria pela costa adusta, toda a terra deserta, sem alma vivente, ao clarão dum luar nunca visto, com o calor do sol e o brilho álgido das estrelas…
- É a África! É a África! – reflectia.
Ora para mim, na infância, a África era o lugar da expiação dos grandes crimes – conforme ouvira. E, assim contemplando este ermo imenso à borda do mar, a minha vista sondava, interrogava, afligia-se, procurando descobrir qualquer figura humana; e, cansados os olhos sem os encontrar, meditava: - onde estarão os degredados?
E o mar, gemendo, arfando, sem vagas, trágico de negrume, viscoso e luzente!
A este sonho sucedia sempre outro sonho…
A acção passava-se num telheiro de forno, pegado à casa onde eu morava, na povoação da Beira onde me criei.
Havia ali, para amassar a broa, um grande caldeirão com água a ferver, suspenso e grossas correntes.
Ouvia então um grande barulho sobre o canto da lenha; e logo me aparecia o Demónio. Alto e corpulento, tinha um semblante humano: mas em tudo era caprino, a não ser nos cornos retorcidos como cifres de carneiro.
Aproximava-se lentamente e perguntava:
- Queres vender-me a tua alma?
Já sabia a minha resposta, seca, monossilábica, decidida.
- Não.
Em regra nem esperava por ela: apenas fazia a pergunta, e até sem a acabar, investia.
Com uma agilidade espantosa, desviava-me; ele ia bater de encontro à padieira do forno, e ficava coberto de cinzas.
Eu era muito ferveroso crente, e sabia orações de esconjuro – mas nunca atinava com elas, nem mesmo com o sinal da Cruz.
A luta prolongava-se: começava a sentir-me cansado, pisado, ferido… então, juntando todas as minhas forças, e com o pensamento firme em Deus, numa maravilhosa segurança de golpe agarrava o Demónio pelos chavelhos, e, dum só balanço, atirava-o para dentro do caldeirão onde a água fervia em cachão.
Nunca conseguia ver as carantonhas de Santanaz neste banho, porque eu ainda de tão pequena estatura que, mesmo em bicos de pés, não alcançava os bordos do caldeirão.
Mas as patas, que ficavam de fora, em breve imóveis, traziam-me a alegre certeza de haver vencido e morto o Diabo!
Isto tudo acabou, ao entrar na puberdade. Foram então outros pesadelos, outras lutas…
Ao canto, o Diabo pinchou sobre a ruma da lenha que, com estrondo, desabou toda; aproximou-se e disse pausada, sarcasticamente:
- Eis-te, afinal… atado de pés e mãos, prisioneiro. Já não poderás escapar; és meu – vencido… e convencido!
Retardei prudentemente a resposta às suas insolentes palavras: e o meu silêncio animou-o.
- Como pretendias, tresloucado, continuar lutando contra o meu poder?
Contive-me, e fraquejei:
- Mas nem sequer pensei mais em Vossa Excelência, desde a ultima vez que nos encontramos: porque atribuir-me, pois, qualquer intenção de hostilidade?
Então ele retorquiu:
- Nenhum acto de hostilidade? E delicioso, amigo! Passaste a vida a chamar pela Verdade, pelo Direito, pela Justiça, isto é, por aquele que me jurou ódio eterno: porventura ignoras que Verdade, Direito, Justiça, são invocações do seu nome?
Senti que o internal mestre de Lógica me excederia em dialéctica, e não tergiversei mais:
- Pois bem: se queres recomeçar, recomeçaremos – miserável!
E lancei-me a ele… Mas quantas vezes estive a ponto de ser subjugado!Alguma coisa me faltava: a energia sobrehumana, a força angélica à qual tudo é fácil, à qual tudo era possível. Em lugar de opor-lhe, desde logo, um «não» decisivo, eu tentara discutir, iludir, parlamentar.
Procurei reanimar todas as fontes vivas da inocência e da fé, sopitadas no fundo do meu ser: e de repente, como outrora, dum só balanço atirei com o Inimigo para dentro do caldeirão.
Mais uma vez – vencera!
Febo Moniz, defrontando-se com o Cardeal-Rei, que queria entregar Portugal a Filipe II – o Demonio do Meio Dia – imprecara:
- Podeis, Senhor, dispor da nossa vida e dos nossos bens; mas não podeis dispor da nossa alma – que essa só pertence a Deus!
O Demónio dispôs dos nossos bens e das nossas vidas, fugilando, enforcando, desgolando, deportando, sequestrando, roubando: mas não pôde nada sôbre a alma de Portugal, que sessenta anos depois ressurgiu, em esplendor de épicas vitórias, tal como em Cerneja e Ourique.
Ao acordar, o grito de São Tiago! São Tiago! soou a meus ouvidos como um apêlo de batalha...
Passaram já tantos anos! Mas sei, meu Deus, que a minha alma, a minha alma de criança crente que lutou com o Demónio, mas a vendi nunca, nem venderei jámais.
Lopes D'Oliveira

sexta-feira, 12 de março de 2010

Jornal "Sol Nascente" - Número único, 5 de Outubro de 1912

O Jornal "Sól Nascente" surge na Marmeleira, Mortágua, em 5 de Outubro de 1912 - consistiu numa edição comemorativa do 2.º aniversário da Implantação da República. 
Os seus directores e proprietários foram Basílio Lopes Pereira e Alfredo Fernandes Martins.
A orientação ideológica do jornal reflecte a defesa dos valores republicanos e a importância da instrução dos jovens, como se depreende da leitura da citação  do filósofo alemão Leibnitz, que acompanhará todos os números do jornal - "Quem tem instrução, tem futuro".
Ademais, os criadores deste número único referem que todo o valor da receita do jornal reverte a favor do Centro Democrático de Educação Popular da Marmeleira.

No artigo de apresentação do jornal "DUAS PALAVRAS", podemos ler:
Sae este numero unico, em comemoração do dia 5 de Outubro de 1910. É uma data gloriosa, i brilha na constelação radiante das revoluções de 1385, de 1640 e de 1829 (...). Nascemos na escravidão e vivemos libertos (...).O partido republicano representa o espírito popular, activo, generoso, emancipador. Cabe-lhe a realisação de uma grande obra de redempção (...). Portugal voltará a ser de futuro uma grande nação (...)
Sol Nascente, Número único, 5 de Outubro de 1912

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Instrução Pública no Concelho no início da Primeira República


“O Regime republicano foi instaurado em Portugal a 5 de Outubro de 1910. No nosso concelho terá sido ao nível da alfabetização da população que mais se fizeram sentir os efeitos do novo regime político. Atestam-no as notícias publicadas em 1914 que referem a realização de um curso de nove meses da Escola Móvel de Vila Nova. Todos os alunos ficaram a saber ler e escrever. A professora foi a Sra D. Maria Assumpção Machado e o Júri das provas finais era constituído pelo Sr. Aureliano Maia, Sr. António José Gonçalves e D. Cândida Gonçalves.
Ao tempo era responsável por um curso nocturno para adultos em Cercosa, a S.ra D.Elisa De Sousa Navarra, professora da escola Primária de Vale de Açores. Em Almaça foi colocada a prestar serviço na Escola Móvel, a professora Alzira dos Santos Alves.
Quanto às escolas primárias em funcionamento no concelho logo nos primeiros anos da primeira república, enumeram-se de seguida, os resultados do aproveitamento dos exames do 1.º grau das escolas do concelho referentes ao ano lectivo de 1913/1914.
Escola Primária de Vale de Remígio, professor Joaquim dos Santos: óptimos, 6 alunos; bons. 6 alunos; suficientes, 4 alunos. Total: 16 alunos.
Escola Primária de Vila Meã, professora D. Cândida Ferreira Gonçalves: óptimos, 5 alunos; bons, 5 alunos. Total: 10 alunos.
Escola de Vale de Carneiro, professora D. Ana Rita Paiva: óptimos 3 alunos; bons, 3 alunos; suficientes, 2 alunos. Total: 9 alunos.
Escola de Vale de Açores, professora D. Elisa de Sousa Navarro: óptimos, 3 alunos; bons, 3 alunos; suficientes, 2 alunos. Total: 8 alunos.
Escola Feminina de Mortágua, professora D. Conceição Cardoso: óptimos 2 alunos; bons, 2 alunas. Total: 4 alunas.
Escola Masculina de Mortágua, professor Acácio Henriques dos Santos: óptimos, 2 alunos; bom, 1 aluno; suficientes, 1 aluno, 1 aluno. Total: 4 alunos.
Escola Feminina de Pala, professor Heleno Luís Campos. Total: 2 alunos.
Escola de Cerdeira, professora D. Beatriz Pais. Total: 3 alunos.
Escola Feminina da Marmeleira, professora D. Joaquina Nunes Martins. Total: 1 ano.
Escola Masculina da Marmeleira, professor David Araújo. Total: 2 alunos.
Realizaram exames do 2.º grau 9 alunos de Vale de Remígio, 3 alunos de Mortágua, 1 aluno de Cerdeira e 1 de Cercosa.
Era manifestamente baixa a frequência escolar concelhia nos primeiros anos do século. Para podermos comparar basta referir o caso da França onde, às vésperas da 1.ª Grande Guerra, a taxa de analfabetismo rondava de 5% do total da população. Havia um longo caminho a percorrer…
Foi em 2 de Janeiro de 1914 aprovada, em sessão plena da Câmara Municipal de Mortágua, uma moção de reconhecimento ao professor Joaquim Santos, recorrendo os bons serviços prestados à instrução popular do concelho, louvando-o e fazendo votos para que o seu exemplo fosse seguido.
Esta moção foi proposta pelo Vereador Júlio Batista dos Reis.”

In, AA VV(2001). Contributos para a Monografia do Concelho de Mortágua. Mortágua: ADICES e Câmara Municipal de Mortágua.



Ligações republicanas do Sr. Armando Lopes Simões



Rúben (9.º B) - Boa Tarde. Obrigado por ter acedido ao nosso pedido. Como se chama e em que ano nasceu?
Sr. Armando - Chamo-me Armando Lopes Simões. Nasci em 1919, no Rio de Janeiro e em 1923 vim com os meus pais viver para Vale de Açores, no domicílio do Dr. José Lopes de Oliveira, que era meu tio.
Rúben – Onde frequentou a escola primária?
Sr. Armando – Estudei na Escola Primária de Vale de Açores e depois em Mortágua, depois de ser expulso de lá.
Rúben – Então, o que aconteceu para ser expulso?
Sr. Armando – Quando entrei na escola, disse à professora que tinha de passar logo para a 2.ª classe, porque eu sabia tudo da 1.ª classe. Mais tarde, quando andava na 4.ª classe, aconteceu que um dos alunos se dirigiu a mim perguntando-me se as contas dele estavam bem. Ao que eu respondi que as mostrasse à professora, porque não era eu o professor. Como ela estava a dormitar, abanando a cabeça, o aluno considerou que tinha as contas correctas e disse-me que ela tinha dito isso mesmo. Então eu retorqui: - "Como é que ela disse que estão bem, se ela está a dormir?". Ela ouviu, não gostou da minha insolência e arremessou-me a “palmatória”. Eu agarrei nela, arremassei-a e ao bater no quadro, partiu-o. Antes que a professora me castigasse fugi da escola e corri para casa. Pouco tempo depois, meus pais foram notificados que eu estava expulso. Isto aconteceu em Janeiro de 1930.
Rúben – Daí o Sr. Armando ter de frequentar a escola primária em Mortágua. Foi fácil entrar na escola da vila?
Sr. Armando – Não. O meu tio, o Dr. José Lopes de Oliveira teve que solicitar autorização ao Inspector Escolar, Dr. César Anjo, de Viseu. E uma das condições para poder frequentar a escola de Mortágua era residir na mesma localidade.
Assim, terminei a instrução primária na Escola Conde Ferreira, em 1930. Fiquei a viver na casa do professor Tomás da Fonseca, em Mortágua, que era amigo do meu tio, Dr. José Lopes de Oliveira. (Eram cunhados, estavam casados com duas irmãs gémeas).
Recordo ainda que, quando realizei o exame da 4.ª classe, o Dr. César Anjo, que vinha fazer os exames, perguntou-me as linhas de caminho de ferro e eu enumerei-as todas e descrevi os locais por onde elas passavam e as suas respectivas paragens.
Não pude continuar a estudar, porque para se fazer o exame de admissão para prosseguir estudos, tinha de ir para Coimbra, não só a distância na época era grande, como também as despesas não eram fáceis de suportar.
Rúben – Após esse período, a que se dedicou?
Sr. Armando – Em 1940 fui para a tropa para Lisboa. Nessa época, não se podia sair da tropa sem ter pelo menos a 3.ª classe. Depois fui para os Açores, para a Ilha de S. Miguel. Nessa altura cerca de 95% da população não sabia ler nem escrever. Então fundei uma escola para os militares aprenderem a ler, escrever e contar.
Há uma ditado que diz o seguinte: ”Não há nada melhor para aprender do que ensinando”. Não há dúvida que a ensinar os outros enriquecemos os nossos conhecimentos.
Rúben – Como já descreveu um pouco do seu passado, pode agora relatar-nos alguns conhecimentos que tenha do papel de alguns mortaguenses que tenham seguido os ideais republicanos?
Sr. Armando - Conheci o Martins de Abreu. Era conhecido pelo "Catorze de Pinheiro". Contactei de mais perto com o Sr. Augusto Simões, que tinha vindo também do Brasil. Pertenceu ao Directório dos republicanos de Mortágua. Teve sempre presente as linhas condutoras dos princípios republicanos e tinha consciência de que era importante instruir a população, daí ter edificado uma escola em Vale de Açores. Também mandou calcetar as ruas principais de Vale de Açores - como ele dizia, "era preciso retirar o esterco” das ruas -, fez um plano de saneamento, obrigando as pessoas a construir as fossas. Houve algumas que não aceitaram cordialmente esta atitude, no início, pois há sempre uma certa relutância às mudanças.
O Sr. Augusto Simões era maçónico. Um dia, avistei-o todo vestido de encarnado, junto a um diospireiro. Eu observava curiosamente a sua indumentária e ele perguntou-me: “Estás a olhar para os diospiros?” Eu respondi-lhe: “Não, eu nem gosto de diospiros. Estou a olhar para o Senhor, que está muito bonito!”.
Rúben – Muito obrigado pelas suas fantásticas memórias!